sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pena de Morte

Entre os que advogam o estabelecimento da pena de morte em nosso país, há os que relacionam objetivos precisos para sua tese.


Entre eles, o que surge em primeiro plano é o de higienizar a sociedade.

Afirmam que a sociedade pode ser comparada a um organismo enfermo.

A fim de preservar a vida do corpo, opta-se pela amputação do membro doentio, evitando-se que a problemática se espalhe, semeando doença irreversível.

Sem nos esquecermos que, no organismo, determinados órgãos como coração e cérebro, por exemplo, não podem ser simplesmente descartados, pois lhe são indispensáveis, tratemos da questão saneamento da comunidade.

Basta que alonguemos o olhar para a rua e defrontaremos de imediato um vasto panorama a ser higienizado.

Falamos dos bolsões de miséria que desfilam pelas ruas. São crianças sujas acompanhando mães maltratadas, empurrando a vida de esquina a esquina, freqüentemente revolvendo lixo à cata de algo aproveitável para saciar a fome.

Velhos maltrapilhos movendo-se com lentidão e dificuldade entre a multidão apressada, estendendo a mão à caridade pública.

Deficientes de variadas condições, rastejando pelas calçadas, esfolando mãos e joelhos, rogando esmolas.

Ao longo das rodovias, barracos infectos cobertos precariamente com plásticos e latas. Visão que enfeia a paisagem de qualquer cidade.

Pode-se iniciar portanto higienizando as ruas, as calçadas, as rodovias, propiciando amparo à mãe sozinha, emprego que lhe garanta o mínimo de sustento aos filhos.

Podemos organizar um mutirão de corações devotados e modificar a paisagem, com pregos, madeiras, tijolos e disponibilizar condições mais humanas de habitação aos que padecem entre paredes quase a cair.

Podemos providenciar asilo e amparo ao idoso enfermo, ao deficiente carente.

E que dizer da paisagem tristonha dos que desconhecem as letras do alfabeto?

Basta olhar ao redor para descobrir o bando de almas infantis que deveriam estar freqüentando os bancos escolares e se encontram pelas ruas, a mendigar, a recolher papéis, a vender bugigangas somente para conseguir uns trocados.

Pobre infância, fanada em pleno desabrochar.

Iletrados crescerão e na escola das ruas aprenderão as lições duras da lei do mais forte, do mais esperto.

Urge higienizemos o panorama, propiciando a escola com alimentação adequada, encaminhamento e incentivo a pais e filhos para a freqüência.

Mostrar-lhes o valor da escola, a riqueza do saber.

Há, sim, muito ainda a higienizar.

Higienizar as comunidades carentes das tantas enfermidades que as dizimam, sem acesso ao medicamento, ao médico, aos exames clínicos e laboratoriais.

Se nosso intuito for melhorar a sociedade, desvencilhando-¬nos do que a torna agressiva, incômoda, há um largo programa de trabalho a desenvolver.

Não há necessidade de matar o semelhante, mesmo porque, investindo-se na educação, na alimentação, na ocupação útil, na saúde, diminuirá potencialmente o número daqueles que caminham a passos largos rumo à criminalidade.

É importante deter-lhes o passo antes que se precipitem nas vielas escuras do erro e das paixões grotescas.

* * *

Se acendermos a lâmpada do alfabeto na mente de um pequenino, ele poderá descobrir as riquezas do Universo e todas as coisas que nele existem.

Isto se chama caridade.